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Wellington Fernandes

01/06/2018 - 10H32 - Texto Marilena Dêgelo | Ilustrações Luiz Lula
 

Delícias e amarguras de uma reforma

Dois jovens casais, um proprietário de uma casa e outro de um apartamento, contam suas experiências durante as reformas de seus imóveis, assim como as surpresas boas e ruins

reforma6 (Foto: Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)(Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)

Mirna e Rodrigo
“Tínhamos pouco tempo para fazer a reforma porque nos mudaríamos em um mês. Decidimos não alterar a planta da casa, apenas fazer intervenções mínimas. O imóvel, um sobrado da década de 1970, tem uma estrutura sólida, precisava apenas de modernização, principalmente da parte elétrica. Essa, sim, era mais precária do que nós imaginávamos.

 

Derrubamos somente uma parede, a que separava a sala de jantar da cozinha, e reenquadramos as janelas desses dois cômodos, que eram quase coladas ao teto, para o centro da parede, conseguindo mais luz e ventilação. A casa pareceu mais ampla com essa pequena modificação. No lugar da parede derrubada, foi colocada uma viga de ferro aparente, mesmo material usado como soleira entre os pisos diferentes. Uma das delícias da reforma é o assoalho de madeira das salas e dos quartos, que se revelou um espetáculo depois de restaurado.

No piso térreo da casa, a parte mais difícil foi a retirada dos azulejos da cozinha e dos banheiros, incrustados na parede, o que atrasou a obra. Nos banheiros do pavimento superior, resolvemos não repetir a empreitada: pintamos os antigos revestimentos e o resultado foi mais que satisfatório. Trocamos apenas as louças, os metais e os pisos dos boxes. Os banheiros ganharam bancadas de concreto e, no lugar das cubas, peças artesanais de cerâmica, há anos na família. Nos quartos, reaproveitamos os armários, com novo revestimento de madeira somente nas portas.

Não conseguimos nos mudar em um mês, mas em 40 dias. Já morando na casa, decidimos sentir o ambiente, descobrir novas necessidades para terminar a reforma. Consideramos que a etapa interna está concluída. Na área externa, ao começar a planejar um jardim para o quintal, descobrimos que temos um porão. A ideia agora é transformá-lo em cisterna. Como a casa foi ficando naturalmente rústica, decidimos que as fachadas serão de taipa. O custo também não excedeu muito o valor projetado. Pela primeira vez, uma reforma não deu tanta dor de cabeça. O segredo está em aproveitar ao máximo o que a casa oferece.”

reforma7 (Foto: Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)(Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)

Márcia e Paulo
“Compramos um apartamento em prédio antigo por ser mais espaçoso do que os dos novos. Pedimos um projeto de reforma para uma arquiteta e calculamos que ela poderia fazê-lo no prazo de 45 dias, enquanto esperávamos a liberação do financiamento. Por fim, pegamos a chave quase três meses depois e, nesse momento, o projeto nos pareceu pronto. Aceitamos o engenheiro sugerido pela arquiteta para tocar a obra porque achamos que a comunicação entre eles seria eficiente. Com equipe própria, ele deu prazo de dois meses para concluir a reforma. Nos preparamos para o atraso de dois meses. No primeiro dia, já tivemos um obstáculo. Na demolição das paredes para integrar a cozinha e a sala, os azulejos, originais de 1965, infelizmente não puderam ser aproveitados. Pior: o elevador quebrou e o condomínio não tinha dinheiro para consertá-lo. Cinco dias após o início, a obra parou uma semana porque o apartamento ficou intransitável com o entulho. E descobrimos que, se os pedreiros saem, a volta deles é um processo lento, pois são remanejados para outros trabalhos.

Vieram outras surpresas. Soubemos que ainda faltava definir detalhes no projeto: a altura do frontão, que afeta a altura da tomada, que afeta a marcenaria, e assim por diante. No meio da reforma, encontraram uma coluna estrutural onde seria a porta do quarto para o banheiro. Foi preciso refazer o projeto, que acabou com muitas versões, e, em decorrência disso, houve uma sequência de erros. A justificativa era sempre a mesma: ‘não estava no projeto’, quando, na verdade, a versão é que estava errada. Como não definimos os detalhes ao contratar o empreiteiro, cada serviço a mais era cobrado à parte. Por exemplo, a porta que seria de correr, ao mudar para uma normal, acrescentou um valor para a colocação do batente. Vimos que, ‘perfeito’ é uma palavra que não combina com reforma. A aplicação do tecnocimento deixou manchas horríveis. Ao refazer o serviço, atrasando a obra em uma semana, o técnico manchou a parede já pintada e os tacos restaurados. Conclusão: não vale pagar mais pelo tecnocimento acreditando que ficará melhor do que o cimento queimado. Após nove meses, nos mudamos e curtimos tanto os espaços amplos e integrados que sumiram parte dos perrengues e até as imperfeições."

reforma 8 (Foto: Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)(Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)

Atrasos, erros e imprevistos
Toda reforma é cheia de surpresas. Por mais que sejam feitas investigações na estrutura do imóvel para a elaboração do projeto, sempre há a questão do imponderável. Por isso, é necessário que ele continue sendo moldado durante a obra. Na investigação, o pedreiro pode cortar as paredes para ver se aparece estrutura independente ou para dimensionar uma viga. Para saber onde circulam as prumadas de água antes de quebrar uma parede, ele deve procurar os registros gerais. O mesmo é feito com as tomadas para descobrir por onde passam os conduítes dos fios elétricos. “O bom levantamento evita o risco de encontrar barreiras, como colunas que não existem na planta original”, diz Luiz Henrique. Mas, apesar do projeto detalhado, muitas mudanças precisam ser feitas diante das necessidades que surgem na obra. "O projeto é um organismo vivo que vai se adaptando durante sua execução”, afirma Gustavo Calazans. “Ao retirar um forro, descobri que a laje não tem a mesma altura em todo o espaço aberto e precisei encontrar uma solução.”

Normalmente, um engenheiro é contratado para fazer prospecções da estrutura. Ele registra a existência de pilares, mas, quando começa a reforma, pode-se descobrir que eles têm variações de tamanho. Para alterar o espaço como está previsto na planta, precisa colocar reforço estrutural. “Já tive de parar uma obra e contratar engenheiro calculista para criar estrutura nova”, diz Gustavo. “Atrasou quatro meses a reforma que ficou três vezes o valor do imóvel.” Um mês de atraso é considerado normal, dependendo do tamanho da obra. Há profissionais que impõem um ritmo lento porque não gostamde ter muitas pessoas trabalhando ao mesmo tempo no canteiro. O acúmulo de serviços demanda mais atenção do gerenciador, que deve checar medidas e avisar o arquiteto se há discrepâncias em relação ao projeto. Qualquer deslize, o risco é enorme. Se o trabalho precisa ser refeito, é avaliado no processo quem é o culpado pelo erro para cobrar a responsabilidade e o custo extra.

reforma 9 (Foto: Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)(Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)
reforma 10 (Foto: Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo)(Ilustração: Luiz Lula/ Editora Globo