Mundo

em 17 novembro, 2019

Está chegando a hora de ir

Foto: Curiosa como sou, desbravei Portugal. Conheci de lugares famosos a pitorescos, desconhecidos até por tugas. Quem sabe também motive a um livro, como sugerem-me.

Depois de dois anos d'alémar, já começo a afivelar as malas para atravessar o Atlântico de volta para casa.

Foram dois anos de muitas realizações. E muitas dificuldades, também. Os melhores e os mais difíceis anos da minha vida.

Tempo de superações que jamais pensei ser capaz.

A começar pela volta à sala de aula, após - agora - 27 anos longe dela. Penso sempre que reinventar é preciso. E assim ousei. Poderia até dizer ousei-me :)

E muitos perguntam por que danado eu vim para Lisboa cursar mestrado em Filosofia Política. Primeiro foi para mais um desafio - que adoro desafiar. A mim, principalmente. 

Segundo para aproveitar a oportunidade de qualificação profissional que a UFRN oferece aos seus servidores. Terceiro porque pretendi observar a entender melhor essa efervescente política brasileira, começando pela filosofia de tudo. E longe das muito 'certeiras' opiniões e análises.

Foi tão difícil. E continua. Muito porque ainda estou na expectativa de que o setor de mestrado da FCSH da Universidade Nova de Liboa marque o tão esperado dia da defesa de minha dissertação.

E a dificuldade financeira? Ufa! Ganhar em real e gastar em euro é realmente loucura. Então, trabalhar mais foi preciso. E assim fui desbravando caminhos que levaram a Revista Bzzz aos holofotes lisboetas. 

E parece que chega um momento em que as provações passam dos limites. Dinheiro contado, eis que surgem os problemas justamente com os equipamentos impresicindíveis para o trabalho e os estudos: celular (que aqui chamam de telemóvel) e notebook. Simplesmente três apagaram. Um deles com grande parte do trabalho de dissertação que não gravei. Snif. Foi dureza. Recomeçar. Força e fé, deu certo. Mas foi brabo. Em muitos momentos pensei em desistir. Logo batia a força que titã emanava: desistir, jamais. 

E lá se vai dificuldade para o dinheiro do conserto, que não aconteceu. Os problemas voltavam. Lá vem um de segunda mão que comprei no Brasil, e trazido por uma prima. Maravilhoso, mas não demorou para falhar geral. Hora de comprar um em terras lusitanas. Ufa, cadê o dinheiro? E foi a opção mais em conta. O que promoveu mais peleja para pesquisar e digitar, diante da sua lerdeza. Precisou de um investimento a mais em tais gigas. Mas, deu certo. É esperar. Concluir . Avante.

E a dissertação - ufa - não sei se o tema que escolhi foi loucura ou uma grande contribuição que deixarei para pesquisas, pois, com intensa e minuciosa pesquisa, discorri sobre o que significa realmente a anarquia, tão tristemente deturpada. Uma ideologia política pura que visa(va) a liberdade de viver. De viver sem o autoritarismo. De viver sem o domínio. O domínio do Estado, do governo e da religião. Da Igreja, mais especificamente, que há muito rege a vida dos que creem em divindade. 

O anarquismo foi - e é - tão relegado, que a maior dificuldade que tive foi o acesso a obras, seja em livraria, seja em biblioteca, seja em sebos etc. Talvez por essa ausência muito de obras sobre o movimento está disponível - gratuitamente - na rede mundial de computadores. Também me abasteci de livros colocados à venda por livreiros e colecionadores.

Joguei-me dias, noites e madrugadas - quantas noites que vi o sol raiar, e olha que no inverno ele surge bem tarde - em leituras e pesquisas. E na composição de tudo que fui absorvendo e entendendo. Ou seja: no texto.

Bom, agora vivo a expectativa de que a defesa seja marcada antes de voltar pra casa. E que Deus permita com o título de mestra.

Ah! 

Entre o ousar, arrisquei-me profundamente no conteúdo da dissertação. Diante da falta de obras e da dificuldade de acesso do que existe, optei por contribuir para pesquisas futuras. Geral. De quem procurar. Assim, arrisquei não realizar uma problematização filosófica, mas sim uma narrativa histórica desse movimento que já dominou o mundo, o que poucos sabem. De um movimento que sofreu, na sensação de cada relato a que tive acesso, um verdadeiro genocídio. Muitas das conquistas que aproveitamos hoje foram às custas de coragem e da morte de muitos anarquistas. Não milhares, mas sim de milhões, entre eles mulheres e crianças.

Passei a entender mais sobre burguesia/capitalismo e a forma camuflada do leninismo/marxismo, que foi, na verdade, o maior inimigo do anarquismo. A quem fez de inocentes anarquistas verdadeiros "idiotas úteis", para propalar o comunismo soviético mundo afora, e desses zombavam e depois elimiram-os. 

Bom, mas essa parte está toda contada na dissertação. Quem sabe seja transformada em livro, com seus devidos ajustes que a banca deve apontar, elementar.

E, voltando ao que o título indicou, estou voltando para casa, para minha família, para os meus amigos, mara Mel e Tom (minha cadelinha e meu gatinho amados), para a Pipa, São Miguel do Gostoso Galinhos...para o meu cantinho.

Até quando dezembro chegar. Início dele.

Mas já digo: já estou com um Atlântico de saudade. 

Autor(a): Eliana Lima