Mundo

em 8 maio, 2018

Mais de 80 mil brasileiros migram para Portugal em busca de mais segurança

Basta caminhar alguns minutos pelas ruas de Lisboa para perceber a quantidade de brasileiros por todos os lados. Apenas em 2017, cerca de 870 mil turistas brasileiros visitaram o país. Mas não é só. Os brasileiros são a maior comunidade de estrangeiros residentes em Portugal. Oficialmente, são cerca de 80 mil pessoas, mas especialistas afirmam que este número é bem maior. Os dados foram divulgados pelo escritório de estatística da União Europeia.

Fugir da crise e da violência, buscar qualidade de vida e segurança são apenas alguns dos motivos que estão levando muitos brasileiros a fazerem as malas para viver em Portugal.

A migração de brasileiros para a "terrinha" não é de hoje e já sofreu mudanças significativas. A escritora Ana Silvia Scott, em seu livro Portugueses, relata como a migração mudou os sentimentos entre portugueses e brasileiros nas últimas décadas.

Ana Silvia recorda que, na década de 1980, os brasileiros que chegavam a Portugal eram recebidos com cordialidade e simpatia por uma população cheia de memórias carinhosas do Brasil. Naquela época quase todos os portugueses tinham histórias de parentes que foram para o Brasil.

Em 1977, os portugueses assistiram a novela brasileira Gabriela, adaptada da obra de Jorge Amado, e a trama modificou comportamentos e a rotina dos portugueses. Além da música, as belezas naturais e o futebol. Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, craques da "seleção canarinho", eram famosos do outro lado do Atlântico. 

No ano de 2000, afirma Ana Silvia em seu livro, que o cenário começou a mudar e o incômodo dos portugueses se tornou evidente. "O sentimento desagradável com relação aos brasileiros surgiu em Portugal devido a intensificação de migrantes de baixa renda e pouca escolaridade".

Enquanto nas décadas de 80 e 90 a migração era em sua maioria de dentistas, publicitários e profissionais da área de informática, insatisfeitos com a instabilidade econômica gerada no governo Collor; nos anos 2000, o perfil preponderante de brasileiros era composto por trabalhadores da construção civil, do comércio, dos restaurantes e do serviço doméstico.

Atualmente houve uma mudança no perfil do brasileiro que migra para Portugal. O que se tem observado é um grande número de pessoas de classe média e alta, que têm optado por viver no país fugindo da violência e da insegurança. Não é raro ouvir relatos como o do engenheiro brasileiro Zwy Goldstein, 60 anos, que optou deixar São Paulo após ter sido assaltado.

A aposentada carioca Lurdes Martins, 66 anos conta que tirava brincos, anéis e colares para andar nas ruas de Ipanema, onde morava. "O contexto brasileiro - social, político e econômico - foi o que me impeliu a emigrar para Portugal. Além da minha admiração pelo país e pelo povo português. A qualidade e o custo de vida é bem melhor que no Brasil. Estou bem feliz aqui", afirma Lurdes.

Ela é bancária aposentada e obteve o visto de "residência temporária" em Portugal. Esse tipo de visto é concedido para estrangeiros que comprovem ter rendimentos para se manter no país. O valor necessário para a obtenção do visto varia de acordo com a quantidade de pessoas da família que se candidatar a viver no país.

O engenheiro Zwy e sua mulher vieram para Portugal com o mesmo visto que Lurdes. Ele conta que, após ter tomado um tiro em uma tentativa de assalto em São Paulo, chegou à conclusão de que não dava mais para viver no Brasil.

"Eu nunca tinha pensado em vir para Portugal, mas comecei a ler matérias que falavam do país. Então resolvi vir com a minha mulher, em março de 2016, para dar uma olhada. Eu adorei isso aqui e, em 24 horas, eu decidi: quero mesmo é ficar aqui, porque é muito legal! Entramos com processo (no Consulado), foi super rápido naquela época e em agosto a gente estava aqui", conta Zwy.

Para o engenheiro a grande vantagem de viver em Portugal é a segurança. "A gente não tem esse tipo de preocupação aqui. Acho incrível isso aqui, não preciso olhar pro lado, não preciso olhar pra trás, não preciso achar que alguém vai aparecer e ferir a gente".

Além disso, para Zwy, a animosidade entre portugueses e brasileiros é coisa do passado. "As pessoas são simpáticas ao contrário do que falavam sempre. Os portugueses recebem muito bem e temos vários amigos aqui. A gente viaja pelo país, que é pequeno, e dá pra ver muita coisa e acaba aprendendo a história do país", conta Zwy, que se diz realizado em Portugal.

Ele afirma que, do Brasil, a saudade é apenas dos amigos, dos lugares pelos quais passou e dos prédios que construiu. No Natal do ano passado, esteve em São Paulo para visitar os parentes e fui novamente assaltado. "Se existia ainda algum resquício de vontade de voltar, não tenho mais nenhuma. A paz que tenho aqui não tem preço".

 

Autor(a): Saulo de Castro