Política

em 6 junho, 2018

Pesquisa mapeia 250 iniciativas de renovação e inovação politica no Brasil e América Latina

"O sistema democrático já foi imaginado e re-imaginado diversas vezes. O tempo atual está convocando a todos nós a fazer o mesmo. Uma nova sociedade pede uma nova política." É com esse mote que o Instituto Update, organização que estuda e fomenta práticas políticas emergentes na América Latina, lança hoje (6) a pesquisa "Emergência Política - América Latina", o retrato de um novo imaginário político latino-americano para o século 21.
 
"Num mundo em que a política se torna sinônimo de crime e corrupção, trazer à tona referências capazes de resgatar a confiança na política, essa potente ferramenta de transformação, é a motivação deste estudo. E a América Latina é o grande palco de onde esse novo mundo emerge, especialmente em 2018, quando acontecem 9 eleições que definirão os próximos passos na região", explica Beatriz Pedreira, pesquisadora e cofundadora do Instituto Update.
 
Fruto de uma viagem por 11 países - Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Paraguai, Peru e Uruguai - esse é o maior estudo sobre inovação política já realizado na região. Foram mais de 22 mil minutos de entrevistas com 250 lideranças sobre temas como "participação cidadã", "governo 2.0", "transparência", "controle social", "cultura política" e "comunicação independente".
 
No primeiro capítulo as pesquisadoras abordam o contexto histórico da região que levou ao atual cenário de fragilidade democrática. E apresentam o conceito de "desimaginação política, o ato de retirar o direito dos indivíduos de criarem novas realidades".
 
Segundo o relatório, a manutenção da desimaginação política é sustentada por dois grandes pilares - Autoritarismo e Desigualdade Social - interligados e enraizados profundamente na nossa sociedade.
 
"Desta lógica resulta um comportamento de apatia, que nega a política como meio de viver em sociedade e inviabiliza um projeto comum. Daí nascem velhos conhecidos nossos, como a 'baixa cultura política', 'falta de confiança nas instituições', 'resistência a novos atores' e 'polarização da sociedade'", explica Beatriz.
 
Na sequência, o estudo mostra como uma combinação de dois fatos históricos criou condições para o resgate do imaginário político latino-americano. Primeiro, o período de redemocratização, nos anos 80 e 90, após décadas de ditadura. Depois, o surgimento da internet. Como resultado, há o fenômeno de tomada das ruas a partir de 2010, que alcança grandes proporções e cria novas possibilidades de atuação política, tais como: a "Primavera Chilena", em 2011; o movimento estudantil "Yo Soy 132", no México, em 2012; e as "Jornadas de Junho" do Brasil, em 2013.
 
A esses novos atores políticos as pesquisadoras dão o nome de "tecedores", tema do segundo capítulo. Isso porque eles "tecem os fragmentos das diversas identidades presentes na sociedade latino-americana, criando pontes, conectando realidades e mediando relações a partir de uma visão: a construção de uma coletividade própria da América Latina".
 
Dos "tecedores" nasce a inovação política que busca amadurecer e fortalecer a democracia. Para isso, utilizam das seguintes estratégias: internet como ferramenta; conteúdo independente; corresponsabilidade; criatividade; ocupação de espaços; diálogo empático e redes de colaboração. É a partir dessas estratégias que o estudo apresenta as centenas de iniciativas mapeadas na região.
 
Em "internet como ferramenta", por exemplo, há a AGESIC, uma instituição ligada à Presidência da República do Uruguai, encarregada de desenvolver as estratégias de Governo Digital, e a  TEDIC Paraguai, organização sem fins lucrativos que desenvolve tecnologia cívica e aberta.
 
Em "criatividade", destacam o LabHacker, laboratório brasileiro de arte, política e tecnologia, e o Laboratorio para la Ciudad, dedicado a facilitar a interação entre a cidadania e o governo na Cidade do México.
 
E em "corresponsabilidade", apresentam o Laboratorio de Gobierno, uma incubadora de novos negócios com soluções sustentáveis para desafios públicos do Chile, e o Congreso Transparente, uma ponte de comunicação entre o congresso e os cidadãos da Guatemala.
 
No site www.emergenciapolitica.org as iniciativas também podem ser consultadas por país, acompanhadas de uma introdução sobre a história local e a lista completa das ações mapeadas.
 
Marielle, presente!
O estudo é dedicado ao trabalho e à trajetória da vereadora Marielle Franco, executada em março deste ano no centro do Rio de Janeiro junto ao seu motorista Anderson Gomes.
 
A vereadora foi uma das 250 pessoas entrevistadas na pesquisa. "Marielle é o símbolo dessa nova política que está emergindo em toda América Latina. Sua voz, suas ideias e suas ações estarão registradas e imortalizadas nesse retrato de cidadãos que, assim como ela, se libertaram dos destinos estabelecidos pelas estruturas sociais dominantes e lutam pela liberdade e autonomia dos indivíduos", comenta Beatriz Pedreira.
 
O áudio da entrevista, realizada em agosto de 2017, foi transformado no curta A voz de Marielle, em parceria com a produtora Maranha.
 
Caminhos para a democracia
A pesquisa foi lançada na manhã desta quarta-feira (6) no seminário "Política do Século 21: a Democracia Re-Imaginada", promovido pelo Instituto Update, em parceria com o Memorial da América Latina e apoio da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil (FES).
 
O encontro contou com uma série de debates sobre soluções e caminhos para a democracia na região, com convidados do Chile, Colômbia, México e Brasil.
 
Foram debatidos temas como "Inovação Eleitoral: experimentações, ferramentas e desafios para as eleições em 2018"; "Inovação Pública: a reinvenção do Estado com a participação da sociedade e novas ferramentas"; "Advocacy: Influência e incidência em larga escala"; "Inovação Partidária: o rompimento da lógica e os novos papéis dos partidos políticos" e "Diversidade no Poder: ocupação das mulheres nos espaços de poder".
 
Emergência Política
Este estudo é a continuidade do mapeamento realizado pelo Instituto Update em 2016, que revelou um ecossistema de práticas políticas emergentes no território a partir de 700 iniciativas em 21 países. Confira os principais resultados dessa primeira fase do levantamento.
 
Para aprofundar o mapeamento, os pesquisadores viajaram a 11 países em 2017 para conhecer de perto as iniciativas e as pessoas que desenvolvem essas novas práticas.
 
Algumas dessas histórias foram ao ar, em novembro do ano passado, na série “Política: modo de usar”, uma parceria entre o Instituto Update e Maria Farinha Filmes, com coprodução da GloboNews. Os episódios estão disponíveis nas plataformas digitais do canal.
 
O "Emergência Política - América Latina" faz parte da série "Emergência Política", um conjunto de pesquisas sobre o surgimento de movimentos, iniciativas e comportamentos políticos que nascem da resistência e das brechas de um sistema arcaico e insuficiente para os desafios do século 21. O próximo capítulo da série será o "Emergência Política - Periferias", com lançamento previsto para o último trimestre do ano.