Cultura

em 9 março, 2020

Você sabia? Que a Praia do Meio já foi chamada de Morcegos?

Foto: Canindé Soares

Na primeira , Cascudo assim descreve a hoje Praia do Meio - "Acta Diurna":

- PRAIA DO MEIO
Conheci a praia apenas visitada pelas ondas. Nenhuma casa. Nem mesmo a Balneária. As residências ficavam trepadas na orla dos morros. Descia-se para o banho. Era uma praia deserta, sonora pela rebentação nos altos rochedos rubros que hospedavam milhares de morcegos.

A praia tomou esse nome: - Morcegos.

Conheci a praia apenas visitada pelas ondas. Nenhuma casa. Nem mesmo a Balneária. As
residências ficavam trepadas na orla dos morros. Descia-se para o banho. Era uma praia deserta,
sonora pela rebentação nos altos rochedos rubros que hospedavam milhares de morcegos.
A praia tomou esse nome: - Morcegos.
Esses morcegos deviam ser moradores seculares, dada a antiguidade do topônimo. Nos
documentos do século XVII já está assim registrado.
Num e outro papel velho aparece com outro batismo.
Diziam-no PONTO MORISCO. Johannes de Laet no seu esboço cartográfico,
AFBEELDINGHE VAN T’FORT OP RIO GRANDE ENDE BELEGERINGHE, fixou-o como sendo
PONTO MOREFCO. O livro de Laet, ANNAES DA COMPANHIA PRIVILEGIADA DAS INDIAS
OCIDENTAIS, é de 1644.
Antes, já o MOREFCO era conhecido por MORCEGOS.
Alfredo de Carvalho traduziu da coleção BRIEVEN EM PAPIEREN UIT BRAZILIE (1633)
uma narrativa da expedição que assaltou e tomou o Forte dos Reis Magos, em dezembro de 1633. Essa
narrativa foi publicada pela revista do Instituto Histórico do Rio Grande do Norte em seus volumes de
1906. Nessa história, várias vezes, encontra-se PONTA DE MORSEVOS e mesmo PONTA DOS
MORCEGOS, onde encalhou o barco do Comandante Albert Gerritszoon Smient. O piloto
Bartolomeu, guia dos holandeses, desconhecia qualquer ponto de desembarque nesse Morcegos. Por
isso foi escolhida PONTA NEGRA para a descida das tropas que dominam a Capitania do Rio Grande.
Por todo o século XVIII não tenho notícias. Vagas referências simplesmente geográficas,
sempre com os morcegos batizando o local.
Em meados do século XIX, Morcegos despertou a curiosidade de um engenheiro que andou
subindo e descendo as grimpas, espavorindo os morcegos senhoriais e acabou escrevendo relatório,
acompanhando caixotes de rochas, amostras de minério.
No Arquivo da Secretaria Geral do Estado está esse relatório do Dr. Antonio Dias dos Santos,
Engenheiro Geral das Obras da Província, datado de 2 de abril de 1868.
“...acha-se na costa deste Litoral no lugar denominado MORCEGO uma grande
jazida de rocha ígnea que encerra muito ferro, da qual tirei uma boa porção,
que tenho acondicionada em cinco caixas e estão às ordens da Presidência para
que faça remeter à Corte afim de se proceder experiências”.
O Presidente da Província, Luiz Barbosa da Silva, deixaria o governo vinte e três dias depois. O
ofício foi encaminhado ao Ministro da Agricultura.
E por lá se perdeu.
MORCEGO continuou sendo apenas praia de banhos, e muito raramente. Banho de mar só se
tomava quando indicado pelo médico. Era tratamento difícil. Ia-se pela madrugada. Só a roupa
feminina era uma complicação em tamanho, volume e feiúra.
O século XX, muito lentamente, conquistou MORCEGOS. AREIA PRETA ficava distante, tão
longe que era uma aventura o passeio masculino para aqueles lados.
Em AREIA PRETA sempre residiram pescadores. Pouquinhos, nas casas de palha pitorescas,
onde enxugavam ao vento rodeiro os trasmalhos.
A primeira casa definitiva em MORCEGOS foi a Casa Balneária que sobrevive. Ficou, anos e
anos, solitária, cercada pelas lufadas e olhada pelo mar inútil aos amavios das sereias natalenses.
Há uns vinte anos começaram a chamar MORCEGOS de PRAIA DO MEIO, porque ficava
entre PETROPÓLIS e AREIA PRETA.
Quem a crismou com esse nome? Depressa se popularizou, apagando o velho chamamento
colonial que encontramos na documentária seiscentista.
Ficou PRAIA DO MEIO.

A República, Natal, Sábado, 07 de março de 1942.

Na segunda - Acta Diurna

- PRAIA DO MEIO (II)
Contei a história da PONTA DOS MORCEGOS ou PRAIA DOS MORCEGOS e não foi
possível explicar a origem do nome atual de PRAIA DO MEIO. Agora o topônimo está clareado pelo
próprio criador.
O Capitão Luiz Candido de Oliveira, oficial reformado da nossa Força Pública, residente no
Recife, escreve-me narrando el cuento.
E diz, por aqui assim:
“Foi este seu criado e velho camarada de outros tempos quem deu à velha
PRAIA DO MORCEGO, o nome de PRAIA DO MEIO...
Foi assim; corria de manso o ano de 1912. Não me recordo em que mês.
Começaram, nesse tempo, a construir as primeiras casas de telha e taipa, entre
MORCEGOS e AREIA PRETA.
Manuel de Oliveira, que, ainda hoje, vive como impressor nas oficinas d’A
REPÚBLICA, acabara de construir ali a sua casa; e querendo, então, solenizar o ato
de inauguração da sua nova residência, resolveu convidar alguns amigos e camaradas,
para um apetitoso almoço. Eu, que, nessa época, era Sargento da Terceira Companhia
Isolada de Caçadores, tive o prazer de ser um dos convidados pelo compadre Manuel
de Oliveira. Passamos, assim, um domingo encantador, ouvindo o sussurro das ondas
que se quebravam de encontro aos rochedos da nova praia. À tarde, porém, à hora das
despedidas, perguntei ao compadre Oliveira, se o nome da praia do MORCEGO ia
continuar. Ele, então, respondeu-me que sim, pois não soubera nada em contrário. Não
me conformando com a resposta, ali mesmo, convoquei todos os presentes, inclusive
diversos pescadores das imediações, e, em reunião no alpendre ao lado, falei a
respeito, pedindo, por fim, a aprovação para o novo nome que ia surgir.Disse que
daquela data em diante, ficaria batizada com o nome de PRAIA DO MEIO, a antiga
PRAIA DOS MORCEGOS, visto ficar situada entre as praias da LIMPA e AREIA
PRETA. A aprovação foi unânime, seguida de salva de palmas, etc. E, após o ato, deixei
ali uma tábua pregada no oitão da casa, com os dizeres já mencionados, denominando
o novo nome da praia.
Assim, pois, ficou, confirmado até hoje, a denominação de PRAIA DO MEIO,
que se tornou oficialmente reconhecida pela Prefeitura do Natal.
Eis aí, velho amigo, para os anais, a minha história. E, agora, tome conta, é
sua!”.
Manuel Joaquim de Oliveira, funcionário da Imprensa Oficial, não escapou de ser interrogado
nesta e mais formas do processo. Confirmou a reminiscência do Luiz Candido, naquele domingo de
1912, instalação da morada, com uma “panelada” tradicional e suculenta. Esqueceu o mês.
A casinha, remodelada a primeira que se fazia de telha e taipa, existe na Avenida Beira Mar no
149. Discorda, porém, num ponto. O nome PRAIA DO MEIO se explica porque é o trecho
compreendido entre PRAIA DO MORCEGOS e a AREIA PRETA e não PRAIA DA LIMPA, na
lembrança do compadre Luiz Candido. A casinha de Manuel Joaquim de Oliveira fica justamente
nessa Avenida Beira Mar que articula as duas praias e não tinha, naquele tempo, batismo algum.
Não era PRAIA DO MORCEGO nem AREIA PRETA. Pedro Lagreca, um espirituoso boêmio
que a morte levou depressa, dizia residir NO MEIO DA PRAIA, e sua residência era vizinha à casa do
Manuel Joaquim de Oliveira.
Pelo exposto, PRAIA DO MEIO, denominação dada à Avenida Beira Mar (posteriormente
assim chamada) estendeu o nome aos antigos domínios dos Morcegos, reunindo-as no prestigio do
nome novo.
Snip, snap, snout,
This tale’s told out!

A República, Natal, Sábado, 16 de Maio de 1942.

Autor(a): Eliana Lima